Caso semelhante é o de TM, abreviatura de trade mark, que nos últimos anos tem constado de muitas embalagens, peças publicitárias e produtos de larga distribuição entre a população urbana, em todos os grupos sociais. É bastante discutível afirmar qual o sentido que a abreviatura assume em situações como a dos clientes da rede de lanchonetes McDonald’s, que a inclui em praticamente todas as peças gráficas distribuídas no Brasil – inclusive junto a qualquer referência aos seus personagens/mascotes (Ronald McDonald, Birdie, Shaky, Papaburger etc.), até mesmo nos brindes promocionais para seus consumidores infantis. Essas crianças – muitas alfabetizadas ou em fase de alfabetização – convivem pacificamente com esse TM, e é bastante possível que seus acompanhantes adultos sejam incapazes de para elas decifrar o significado ou mesmo encontrar uma simples razão para a inclusão daquele binômio enigmático, caso sejam argüidos sobre isso. Simplesmente, parece não fazer sentido – e pronto: a falta de sentido não impede o consumo do sanduíche, o retorno à lanchonete para novo consumo nem, infelizmente, a realização daquelas conhecidas festas infantis.
(…) nos esquecemos de fazer meia-dúzia de perguntas muito pertinentes aocontexto no qual estamos:>>> Por que comunicação e confusão visual se excluem, se há tantas pessoas diariamente trabalhando, morando e consumindo na confusa Avenida Nossa Senhora de Copacabana, no Rio, e elas não se perdem, não se mudam e não deixam de trabalhar, morar, consumir e ter algum prazer com isso – a ponto de o bairro ser um dos maiores arrecadadores de impostos da cidade?
>>> A qual armazém de imagens devo me referir com tanta dedicação? Àquele que todos nós formamos desde a tenra infância, pelos desenhos animados cujos personagens faziam um gesto com o polegar e o indicador, que parecia significar ok mas que se eu usasse na rua iria me trazer pancadaria com os colegas? Ou pela árvore de Natal representada por uma planta que nunca vi, coberta por um algodão simulando uma neve que nunca toquei, mas que indiscutivelmente me faz associar a festa natalina, vivida nas noites quentes de dezembro?
>>> A qual mundo devo recorrer para identificar esse armazém de imagens? Ao da tela da TV (que é virtual, mas presente e me dá prazer, e portanto se torna real) ou ao dos colegas de rua (que são reais, presentes e também me dão prazer)? Ao do rancho, que faz sentido mas é um erro por ignorância, ou ao do rush, que não faz sentido mas é o correto? Àquele que me faz pronunciar IBM com a sonoridade de episteme e Titanic tal como piquenique (e não “taitânic”) ou o que me faz pronunciar MTV como bem-te-vi (e não “ême-te-vê”)?
>>> A quais muitos devo me referir para encontrar as imagens objetivas às quais devo recorrer? Aos muitos do nordeste ou aos muitos do sul? Ou aos muitos de Copacabana? Mas a quais muitos de Copacabana – aqueles que moram na Atlântica, nos dois-quartos das transversais, nos conjugados da Nossa Senhora de Copacabana ou no cimento das calçadas? Ou, ainda, aos jovens que freqüentam e pagam a PUC ou aos jovens que freqüentam e pagam a Universidade Gama Filho?
>>> Mas, então, de que adianta montar um armazém de imagens, se tenho de ter tantas imagens de cada gênero, para atender a tantos muitos, de tantos mundos, num universo de tanta confusão visual? Não deveria ser, em vez de um armazém, uma loja de departamentos…? Ou, talvez, um shopping center? Ou um bairro comercial inteiro?
>>> Mas de que me serve esse princípio de busca por imagens que sejam legíveis para todos e por todos da mesma maneira se acabo de concluir que preciso de um mundo inteiro para armazenar tantos significantes que dêem conta de tantos significados????





